segunda-feira, 23 de junho de 2008

Linda Falua

Gestos inúteis, repetidos todos os dias
Artimanhas e disfarces que uso para parecer o se quer que eu seja
Mas eu não sou nada,
Nada e cada vez menos…
[Que linda falua,
Que lá vem, lá vem
]
Empenho todo o meu ser a ser o que é preciso,
Adequando cada passo ao tamanho da estrada
Seguindo na fila indiana, de quem vai à minha frente
[Fruta ou chocolate]
E agora acabo comigo vazia, sem conseguir decidir
Inútil sem conseguir agir

Quero voltar à fila,
Não consigo ir à frente e decidir o caminho
Não quero ir à frente a ver o caminho
Só quero seguir, com as mãos nos ombros de quem vai à frente
Andar às voltas
[Cantar]
Só; não quero fruta nem chocolate
Só quero brincar
Só mais uma vez

terça-feira, 10 de junho de 2008

Inércia


Ninguém gosta de nós pelo que nós somos. Gostam de nós pelo que fazemos, pelo que podem esperar de nós, e quando deixamos de corresponder a essas expectativas vamos sendo arrastados para o canto. E isso é ... completamente legítimo. A inércia não deve jamais ser premiada e incentivada. Somos tão responsáveis pelo que somos, como pelo que somos para os outros. Esta responsabilidade social não pode ser delegada para o outro. Todas as atitudes que tomamos, com mais ou menos impacto, afectam sempre e só a nossa imagem para o outro.



E hoje mais uma vez encontro-me mergulhada nesta inércia.
Fui eu que decidir não sair, não falar
Quis sem querer, merecer tudo o que me acontece.
Nãos e mais nãos!
Sei o que não quero,
Mas falham-me as mãos
E audácia para decidir
Levantar-me e ir

Talvez amanhã,
Mas amanhã vai dar mais trabalho
Voltar a ter
O que por não fazer
Foi tão fácil de diluir

quarta-feira, 4 de junho de 2008

Escuto

Nada a dizer.

Hoje não tenho nada a dizer, nada que possa ter o condão de acrescentar-vos conhecimento ou entendimento. Nada que em palavras possa partilhar convosco, posso apenas estar aqui a escutar todos os sons e ínfimas vibrações que emana o vosso, e também meu, universo. Talvez nunca consiga completamente conhecê-lo, mas hoje não quero começar com raciocínios mais ou menos lógicos, com questões… Quero apenas estar aqui a ouvir, nem que dos sons incontáveis que se ouvem eu consiga apenas escutar um. E escuto, hoje escuto.
Nada a dizer, já disse. Hoje diz-me tu: daqui te escuto.


E que este espaço nunca seja suficientemente amplo para que o eco as minhas palavras perpetue sem resposta.

terça-feira, 3 de junho de 2008

Outra para a gaveta


Outra vez a mesma preocupação de sempre e de mais um dia, ou mais uma para juntar a outras tantas.
Ainda que escondida em gestos rápidos e não premeditados, ela continua aqui, a martelar, a bater baixinho, a espicaçar, a moer devagarinho. Em tudo o que vou sendo ela faz questão de ser também: primeiro a ver e depois a macerar. É ubíqua e omnisciente. Tudo o que digo, o que não digo, o que faço, o que não faço, o que penso, o que não penso ela conhece e escarafuncha. Escrupulosa na análise, não se coíbe de se mostrar e rodear e inundar todo e qualquer erro ou falha ou falta. E não se cala nunca!
Hoje vou tentar mais uma vez ignorá-la e colocá-la na gaveta, na mesma gaveta de sempre onde está tudo o que atormenta e faz barulho. Vou escondê-la, vou esmagá-la, inutilmente, tentar anulá-la ao infinitésimo de importância que lhe pertence. Tarefa inútil! Ela não se cala! Ela não para de bater, de atazanar, de atormentar… Dissimulada, vai puxando os cordelinhos das marionetas no teatro dos problemas, e não deixa que eles permaneçam quietos e adormecidos na gaveta para onde foram persistentemente colocados e recolocados. A gaveta que continua a fazer barulho. Às vezes não a ouço, (ou finjo) mas ela nunca abranda o ritmo ou volume. Às vezes a única maneira de não a ouvir é fazer mais barulho que ela, é bater com mais força e empurrar e gritar e amaldiçoar e enxovalhar e enchocalhar, até ela se calar ou eu me cansar, ou adormecermos as duas uma vez mais. Eu de exaustão, ela para retomar forças e amanhã voltar, outra vez e mais uma vez e sempre, ao ataque.
Sei que é melhor não abrir a gaveta.