segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Lusco fusco


Estes breves instantes de mudança, o compasso de espera entre o dia e a noite, o intervalo.




Deito-me no chão, de costas para a terra. Abro os olhos e contemplo o céu. Assisto ao grande espectáculo de cores que se desenrola todos os dias sobre as nossas cabeças. As nuvens que seguem de norte para sul, arrastadas pelo vento frio, esfumando-se ou chocando umas com as outras, vão tomando várias formas, como sendo diferentes personagens do filme que vai rolando nestes instantes. Outrora cinzentas, agora apresentam-se de um rosa laranja, dourado na base, e vão animando o céu. Na sua correria, as nuvens abrem espaços para a actuação de singelos artistas cintilantes, que vão aparecendo e desaparecendo como pequenos quasares. Um pequeno avião rasga o céu, simulando uma lâmina, que o separa em dois pelo seu rasto de fumo rectilíneo. O céu; palco do espectáculo! O pano de fundo colorido, que abandona o azul habitual para experimentar tons mais quentes. Agora rosa, o palco é invadido por novos artistas barulhentos: pássaros. Na sua azáfama habitual destas horas, cruzam os céus, em bandos ou sozinhos, num chinfrim danado que vem quebrar o silêncio monumental deste compasso de espera. E continuam, de árvore em árvore num reboliço, como se não conseguissem conter em si a energia do dia que passou e a expectativa do que está para vir depois destes instantes de mudança.




Agora sento-me e perscruto o horizonte. Sob o céu monumental, descansa a terra no seu silêncio agitado. Alguns carros vão passando com pressa de chegar, intervalados por segundos de calma que vão crescendo para momentos de quietude. Sem aviso, acendem-se as luzes da estrada. Um zumbido crescente anuncia a chegada de uma lambretta. O seu hirto ocupante vem carregado de sacos e preocupações. Com algum vagar adquirido pelo passar das primaveras, vai desenhando as curvas da estrada, azoinando o ar com o seu zumbido impertinente.
Lá longe vai-se erguendo a imponente silhueta lunar. Brilhante, vai subindo no céu sem pedir. O céu… já há muito abandonou os tons quentes, foi sendo invadido por um manto azul arroxeado que subiu vindo de Este, preparando a entrada da Lua. E a Lua sobe. A luz vai escasseando…




Misturada nestes instantes de mudança, vai chegando a noite. Dissimulada pelo silêncio e pela confusão de cores, vai emergindo agora sobrepondo-se ao dia. Abraça toda a terra com o seu manto escuro, e com uma canção de embalar transporta-nos para o seu sono profundo. Cá em baixo já só se vêem as pequenas trémulas luzes da estrada, lá em cima a Lua redonda e imponente que vai ofuscando as estrelas mais próximas.
O vento norte continua a soprar. Vou para dentro. Amanhã há mais.