quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

Imagem

Hoje quero dar o pontapé no urso…
Quero poder fazer este exercício sempre que conseguir lembrar-me que já vi coisas mais bonitas do que vejo agora.


Fecho os olhos e olho o pôr-do-sol. Não é bem o pôr-do-sol, é o quase pôr-do-sol. Estou sentada na esplanada à beira-mar, inspiro fundo. Sou abraçada por todo um conjunto de cores, sons e aromas muitas vezes antes experimentados, mas nem sempre apreciados devidamente. Demoro-me a escutar o mar: rugindo em força contra a praia, lavando violentamente o areal. Diluídas nesta fúria sensacional escutam-se ainda as vozes das gaivotas, que vão suavemente descendo até à praia em busca de jantar.
Inspiro fundo. Saboreio a maresia… Sinto o vento frio que dança ali ao pé. Por vezes ombreando a fúria das investidas do mar, fustiga fortemente a pele… Sinto a luz do sol no meu rosto, tentando aquecer o que o vento vai arrefecendo.
Inspiro fundo. E vejo…O mar agitado e o areal remexido sobre o qual pairam gaivotas. E ao longe, ainda por cima do horizonte, o sol que inevitavelmente vai caindo, caindo, até tocar no mar. Por cima do horizonte o céu vai experimentando uma variação de cores, e as poucas nuvens que o enfeitam tomam tons dourados, alaranjados e rosa. A grande bola laranja reduz-se a um semicírculo e o céu está agora cor-de-rosa.
Inspiro fundo uma vez mais numa tentativa de abarcar toda a imensa pacificidade que me envolve agora.
O sol já se pôs, desapareceu por hoje. E com ele desapareceu também toda a inquietude que trazia eu cá dentro e é impossível impedir o sorriso que se desenha no meu rosto.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

Conflitos


Hoje tenho cá dentro tantas vozes que não consigo ouvi-las coerentemente… São tantas que se atropelam, falando umas por cima das outras.
Uma dela quer contar uma história sobre o mar o sol o por do sol a praia o vento as cores o cor-de-rosa o céu. Outra quer ver fotografias antigas… A outra está revoltada com o que se tem passado e despeja em corrida todo o amontoado de cubos de raiva e ódio que tem guardado num puzzle. A outra ri… ri tão alto, mas tão alto que se estivesse o alarme de fogo disparado, iria parecer apenas um zumbido quando comparado com esta…
Todas elas se vão empurrando esbarrando subindo umas por cima das outras, e o que vai saindo é algo imaterializável, como que apenas magnético, com efeitos e trajectórias invisíveis. São sentimentos opostos que convivem dentro do mesmo espaço. Risos lacrimejantes e gritos silenciosos…
Por enquanto estão cá dentro e saem à vez e ordenadas, e se um dia o porteiro se despedir?
Ah-ah-ah-ah

Hoje tenho tanta coisa para dizer, mas não consigo contar nada… Esqueci-me como se escolhem as palavras certas. Onde, em que espaço da minha linha temporal perdi a capacidade de organização da mente, ou será que nunca a tive e vivia apenas iludida de que o meu raciocínio estava saudável? Estou mesmo a perder coisas pelo caminho, ou só agora se acenderam as luzes e consegui ver que elas na realidade nunca lá estiveram? Sou menos do que era, ou pensava ser algo que nunca fui realmente? A imagem que olha para mim hoje do outro lado do espelho é a mesma que me olhava ontem, e é a mesma das fotografias? Quando comparo a imagem de hoje com imagens passadas por vezes não me reconheço… Mas porquê? Sou eu. Eu sou a mesma das fotografias… Serei? Já não consigo fazer “aquela cara”, mas sou eu. Ainda que esteja muito apagada, a imagem das fotos ainda é visível ao espelho. Ainda que esteja abafada por vozes grandes, eu estou cá. E sou eu, sou eu com mais algumas realidades, mas sou eu. E não me digam que não sou, porque eu quero ser eu, não quero ser uma pessoa que não conheço, por isso agora: Silêncio, deixem ouvir-me!

Hoje ouço-me com uma clareza cristalina. Não há confusão, sou eu. Afinal de contas era só eu, era apenas uma voz, a minha voz, as demais não passavam de artifícios de eco…

domingo, 2 de dezembro de 2007

Olhar o céu

Olhamos o céu ou as estrelas?

A imensidão de escuro enfeitada de luzes é arrebatadoramente bela. Será que existiria escuridão se não houvesse luz? Haveria céu se estrelas não houvesse? Se assim fosse seria impossível fazer distinção entre tudo e coisa nenhuma. As estrelas são divinamente belas, perfeitas, brilhantes, únicas… Se não estivessem pregadas ao pano preto será que continuariam a ter o mesmo impacto?
Há estrelas, umas mais brilhantes, outras quase ocultas, e há o céu… Nem tudo pode ser estrela, nem tudo pode brilhar, senão não brilhava: é preciso haver sempre um pano escuro por trás. É preciso haver o lado escuro. Nem todos podemos brilhar, até porque, há muito mais céu que estrelas.

Especialmente dedicado a quem sente não fazer parte das estrelas