sexta-feira, 9 de novembro de 2007

Sozinha e sem mim

Foi um sonho. Outra vez um sonho…

Abro os olhos uma e outra vez, tentando acordar as partes de mim ainda adormecidas. À minha volta o quarto imerso em silêncio… Olho para a janela. Emana uma luz crua e fria. Levanto-me e aproximo-me da janela; lá fora desenrola-se um Inverno cruel. Consigo sentir o barulho que o vento faz ao passar pelas frinchas da janela.

Já lá fora olho o céu. Parece que está fechado, oculto na opaca camada branca, mistura de smog com nevoeiro…não sei. Toda esta sufocante opacidade parece que pesa em cima dos meus ombros e me obriga a forçar a entrada de ar para os pulmões. Ainda assim, contrastantes com a monotonia que cobre o céu, à minha frente voam agitadas partículas. Folhas, poeiras, papeis passam de um lado para o outro, rodopiando, pairando, quase reproduzindo a atitude cosmopolita matinal das pessoas. E seguem, daqui para diante, embatendo em barreiras estáticas, num murmúrio quase constante e ensurdecedor. Quase parece que gritam, exasperantes e apavoradas com mais um dia de Inverno que começa, turbulento e monótono como tantos outros.
Aperto o casaco e lanço-me para dentro deste turbilhão de movimento intenso e constante. Desço a rua em passo apressado como sempre. Como sempre atrasada, num mundo que mora a cinco minutos de atraso do mundo dito real. Chego ao metro, que hoje ao contrário de sempre, espera por mim. Já dentro do comboio encaro com um rosto familiar. Entramos então na mesma conversa de sempre, como se tivesse passado apenas um instante desde a última. Gargalhadas desafogadas parecem incomodar o luto confortável dos demais passageiros.
De repente desaparece a luz e o som, como que sugadas para um ponto infinitamente pequeno do espaço, e fico só eu no vazio. Ainda pergunto inocente por alguém. O vazio envolve-me, sufoca-me, prende-me os movimentos, a voz. Agora falo mas não me oiço, sai nada da minha boca. Abate-se sobre mim um temeroso sentimento de não existência. Agora não sinto os braços, nem as pernas, nem o corpo. Não sinto nada. Estou sozinha e sem mim.

Acordo.
Foi um sonho, outra vez o mesmo sonho.

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