quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

O Visitante

- Ok eu passo lá a buscar, num instante.
Saiu e contornou o prédio em passo apressado. Aconchegou a gola do casaco ao pescoço para evitar o frio cortante da noite. Desceu as escadas mal iluminadas do lado do prédio. Bafejando e esfregando as mãos, numa tentativa inútil de “descongelar” os nós dos dedos, lá foi descendo em passo de corrida. Findas as escadas vira à direita entrando na avenida banhada por luz laranja. Carros passam rápido, inundando o lugar de barulho e fumo e fumo de escape, aquecendo o ar, tornando-o viciado e pesado.
Só mais uns metros… «ah, ainda está aberto, óptimo.» O sensor da porta detecta a presença de novo visitante; a porta abre, numa lentidão habitual de uma porta que abre e fecha vezes de mãos, que obriga a um compasso de espera do visitante. Quando já se criou espaço suficiente para a sua passagem, ele entra regressando à sua marcha apressada.
Percorre o corredor central «Ovos, ovos… mas onde é que são os ovos?.. Ah, aqui» vira à direita e procura, percorrendo as prateleiras com os olhos… «Não…» Regressa ao corredor central, procura nas placas suspensas do tecto a indicação do que busca.
A música ambiente é interrompida… «Estimados clientes: são 21h30 e informamos que acabámos de fechar os nossos serviços, queiram dirigir-se às linhas de caixa. Amanhã estaremos abertos a partir das 8h30. Muito obrigado, boa noite.»
«Merda, onde é que estão os ovos?..» Acelerou ainda mais o passo e virou à esquerda na zona dos lacticínios, procurou e ao lado das natas lá estavam. «Muito bem escondidinhos como sempre» Terminada a busca, dirige-se para as caixas. Só resta uma em funcionamento, com um cliente a pagar a conta.
- Boa noite.
- Boa noite.
Entra na loja um indivíduo já de idade avançada, deslocando-se com alguma dificuldade, cambaleando, provavelmente devido ao estado de embriaguez. A sua entrada tem um efeito paralisante nos presentes. Começa a gritar:
- Está uma barulheira aqui que não se pode, é todos os dias a mesma coisa! Mas hoje vai haver molho…
Enquanto gritava gesticulava com os braços, abanando com a sua mão direita a arma de fogo de que se munia.
O visitante, que já tinha liquidado a sua conta, pegou no saco dos ovos, e procurando ser o mais discreto possível foi dirigindo-se para a saída, enquanto o visitante recente continuava a gesticular agitando a arma e a gritar um sem nome de parvoíces. É então que se apercebe da movimentação do visitante e dirigindo-se a este, aponta-lhe a arma apenas com uma mão.
- E hoje alguém vai ter de pagar.
Ao ouvir isto o visitante cessa a marcha, como que gela, e sente o sangue descer-lhe da cara; empalidece. Paralisado sem reacção num momento de silêncio absoluto que não dura mais que dois segundos. Quando finalmente abre a boca não consegue emitir qualquer som. Com um esforço sobre-humano consegue finalmente, ao mesmo tempo que ergue o braço num gesto que procurava acalmar o visitante exaltado, exprimir um “Oiça…”
BAM! Um estrondoso tiro cortou a palavra. Gritos de alguns funcionários do estabelecimento. O visitante apenas conseguiu largar o saco dos ovos, agora esmagados, e avança agora com um passo em direcção ao visitante exaltado:
- Tenha calma…
BAM! Outro disparo e mais gritos histéricos, desta vez mais prolongados… O visitante sente qualquer coisa na cara que lhe queima a zona do olho esquerdo, a custo abre os olhos e leva as mãos ao rosto que se encontrava coberto por algo líquido e quente, tão quente… Neste instante o visitante exaltado abre o rosto numa expressão de surpresa, arrependimento e medo. Como que acordado do transe, violentamente lança a arma para um canto e põe-se em fuga.
Depois de passar as mãos pelo rosto, o visitante olha-as com assombro. Cai de joelhos; demora-se ainda uns segundos a olhar as suas mãos cobertas de sangue, sangue que vai escorrendo agora pela face pingando em gordas gotas sobre o chão numa mancha que aumenta em velocidade astronómica. Cai por fim de abatimento e choque no chão de barriga para baixo, com a cara de lado e os braços estendidos. Continua a olhar a sua mão esquerda até deixar de ver por seus olhos se encontrarem cobertos de sangue.

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